
Há datas que o calendário assinala em preto e branco, mas que a memória guarda a cores vivas ou, por vezes, no cinzento metálico de uma fuselagem que se recusa a obedecer ao céu. O ano era 1998. O destino era o Projecto Catoca, o gigante diamantífero que começava a despertar nas entranhas da Lunda Sul. Munido da sua caneta e do olhar de repórter, seguia para documentar o futuro o conceituado jornalista Dias Francisco. Mal sabia que, naquele dia, o futuro seria um presente que ele teria de conquistar entre destroços.
O Antonov estava pesado. Não apenas pelo aço da sua estrutura russa, mas pelo ventre carregado de víveres e combustível o sangue e o sustento que alimentavam as operações no leste. Naquela época, voar para as Lundas era um ato de fé. O ronco dos motores era a nossa única oração.
“Lembro-me do impacto. O momento em que a física se sobrepõe à vontade humana e o chão de Saurimo sobe para nos interpelar de forma violenta. Num avião lotado de combustível, cada segundo de sobrevivência é um milagre matemático. O silêncio que se segue ao estrondo é o mais ensurdecedor dos sons; é o vácuo onde a vida decide se fica ou se vai”.

Eu fiquei disse-nos Dias Francisco Lacrimejando:
“Saí daqueles destroços como quem nasce pela segunda vez. A reportagem sobre Catoca, que deveria ser sobre minas e diamantes, tornou-se, no meu íntimo, uma crónica sobre a fragilidade da existência. Ali, no solo batido da Lunda, compreendi que a minha voz não era apenas uma ferramenta de trabalho, mas uma missão. Se o destino me permitiu caminhar para longe daquela carcaça fumegante, era porque havia muitas histórias que ainda precisavam de ser escritas por mim”
Hoje, quando olho para a minha carreira como engenheiro, para os meus alunos na UAN ou para as crónicas que dedico aos amigos que partiram, como o Man Nela, escrevo com a tinta de quem conhece o peso da queda e a glória do levantar. 1998 não foi o fim de um voo; foi a descolagem definitiva para o homem dedicado a sua tarefa de informar desde o início do longínquo ano de 1992 sobre questões relacionadas ao sector Geológico-Mineiro até a data hoje.
Muito obrigado colega e amigo Dias Francisco. Deus todo Poderoso quis que ainda continuasses connosco.
@ Boofre Chicangala