
Poucos temas tem tanto apelo dentro da mineração atualmente quanto a exploração das chamadas “terras raras“.
O grupo de minerais, que não é nem terra, nem raro, como especialistas sustentam, é abundante no Brasil e de complexa exploração. Com aplicações variadas, em especial como componente importante para a transição energética, a exploração do metal no Brasil já tem sido disputada por mineradoras estrangeiras.
Se dependesse de membros do Governo Federal, no entanto, um dos players desse novo segmento dentro da mineração seria justamente a Vale (VALE3). A companhia divulgou novo plano para “destravar mineração” e gerar mais de 2,3 milhões de vagas no sector em evento realizado no mês de Agosto. Além de iniciativas da própria mineradora, o argumento da Vale também vai em direcção à necessidade de reformas para o sector.
O lançamento do relatório, chamado de “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”, aconteceu em fórum homónimo, realizado em Brasília, com a participação de representantes do governo federal, do sector produtivo mineral e especialistas em infra-estrutura e competitividade.
O plano prevê desde optimização e padronização de processos de licenciamento, criação de programa de qualificação com uso de compensação financeira de exploração de recursos minerais até a implementação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Mesmo com intenções já declaradas em torno do apoio ao fortalecimento da exploração de minerais críticos, a companhia ainda não prevê, no documento, propriamente a entrada no segmento.
Nessa ocasião, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), Aloizio Mercadante, disse ter intenção de “olhar com a Vale” minerais como lítio, o cobre (já no portfólio da mineradora) e citou terras raras.
Na semana seguinte, na Exposibram, um dos maiores eventos brasileiros do sector de mineração, organizado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), também não faltaram menções ao tema.
Segundo a Reuters, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou na última segunda-feira ter “absoluta certeza” de que a Vale, como uma referência global no sector de mineração, olhará para a necessidade de realizar grandes projectos no Brasil.
O político disse que, na sua visão, o interesse da mineradora certamente irá além do minério de ferro e recairá em minerais críticos e estratégicos, em especial em terras raras. A entrevista aconteceu após questionamento sobre a necessidade de desenvolvimento de mega projectos no Brasil, apresentada pelo CEO da Vale, Gustavo Pimenta, na semana anterior.
“O Brasil, com as terras raras, vai ser uma oportunidade de reindustrializar o país, de fortalecer o emprego, a renda, a inclusão, e a Vale, como uma grande referência global do setor mineral, é uma empresa que tenho absoluta certeza que, no seu plano estratégico, vai olhar para a necessidade de grandes projectos também, além do minério de ferro, para a área dos minerais críticos e estratégicos, em especial das terras raras”, disse.
A certeza do ministro, no entanto, ainda não encontra eco nas declarações da directoria da companhia. No dia seguinte, o presidente da Vale afirmou que o foco da mineradora ainda segue em commodities nas quais há já uma estabelecida vantagem competitiva e também escala. Os materiais que actualmente fazem parte do portfólio da companhia em escala são minério de ferro, cobre e níquel.
“Mas estamos sempre a estudar outras commodities. Terras raras, lítio, são parte de estudo e não tomamos nenhuma decisão de investimento”, disse.
Pimenta afirmou também que qualquer iniciativa, além dos minerais que já estão no escopo da companhia, dependerá da disciplina na alocação de capital.
Mineração circular
A exploração de terras raras de forma directa pode ainda não estar nos planos concretos da companhia, mas a potencial recuperação do complexo de minérios através de iniciativas de circularidade, sim.
A companhia estaria a estudar a possibilidade de obter terras raras, ouro e outros minerais a partir de rejeitos de mineração. A Vale já trabalha com reaproveitamento de rejeitos há alguns anos. Um dos exemplos acontece no Pará, na Barragem do Gelado. Desde 2023, a companhia faz processo de reaproveitamento por dragas eléctricas que extraem o material depositado no fundo. O minério extraído dessa forma tem alto teor aproveitável de ferro (63%). A mineradora também tem iniciativas da mesma natureza em Minas Gerais.
O vice-presidente executivo técnico da mineradora, Rafael Bittar, não detalhou, aos jornalistas, de que forma a extracção poderia acontecer no caso das terras raras. Mas afirmou que estudos já são parte da iniciativa da companhia, que busca ampliar o aproveitamento de resíduos e avançar na estratégia de circularidade.
O executivo disse que a companhia está “cautelosamente optimista” com resultados até ao momento, já que as análises ainda estão em estágio inicial. Não se identificou, ainda, viabilidade económica para que a iniciativa possa ser quantificada ou estruturada. Mesmo assim, Bittar disse que resultados preliminares têm sido animadores.
Mas, se a companhia já estuda a obtenção do material através de mineração circular, o que falta para de facto explorar terras raras? Os entraves podem ter a ver menos com a operação da própria mineradora do que com características da extracção do complexo mineral.
Mercado e tecnologia
A exploração de terras raras, embora mais “barata” que outros minérios como os já obtidos pela Vale há décadas, esbarra em outros desafios.
Em entrevista ao InfoMoney há alguns meses, o presidente da Ibram, Pablo Cesário, afirmou que a capacidade de processamento mineral em escala industrial é um dos principais entraves que a exploração de terras raras tem no momento, no Brasil.
Além disso, o executivo ponderou que, somada às dificuldades inerentes a qualquer actividade de mineração, como a demora no início da exploração, as terras raras carecem de mercado estruturado no país. Como a tecnologia para exploração e processamento está presente maioritariamente na China, lá também está a infra-estrutura de mercado para o minério.
InfoMoney