PAQUISTÃO: CHAPAS DE AÇO RETIRADAS DE NAVIOS VELHOS SÃO TRANSFORMADAS EM MILHARES DE PREGOS DE FERRO EM PÓLOS DE RECICLAGEM

PAQUISTÃO: CHAPAS DE AÇO RETIRADAS DE NAVIOS VELHOS SÃO TRANSFORMADAS EM MILHARES DE PREGOS DE FERRO EM PÓLOS DE RECICLAGEM

O ferro que um dia cruzou oceanos vira matéria bruta de novo: aquecido, prensado e moldado em peças minúsculas. O ciclo impressiona pela engenhosidade e pela economia de recursos. Mas, por trás do brilho do metal recém-forjado, há um sector marcado por trabalho perigoso, salários baixos e sérios riscos à saúde e ao meio ambiente.

Chapas de aço retiradas de navios velhos estão a ser transformadas em milhares de pregos de ferro em grandes pólos de reciclagem, como os existentes no Paquistão. Num processo pesado de corte, aquecimento e moldagem, estruturas completamente enferrujadas ganham nova vida e abastecem boa parte da indústria de aço do país, num exemplo impressionante de reaproveitamento de materiais em escala industrial, que transforma o que seria sucata em produto útil.

O processo, registado em vídeos de fábricas que circulam nas redes sociais, mostra cada etapa dessa transformação, mas é preciso ir além das imagens para entender o contexto completo. Essa actividade, conhecida como desmanche ou reciclagem de navios, está concentrada em alguns poucos países, e, ao mesmo tempo em que é economicamente importante e ambientalmente útil ao reaproveitar o aço, carrega um lado sombrio de condições de trabalho perigosas e impactos ambientais que não podem ser ignorados, como veremos ao longo desta reportagem.

Tudo começa com o gigante de metal chegando ao fim da vida útil | DR

De navio enferrujado a matéria-prima

Nos pátios de desmanche, grandes chapas de aço são retiradas dos cascos de embarcações antigas, cobertas de ferrugem e marcadas por anos de exposição à água salgada, e então cortadas em pedaços menores com ferramentas capazes de atravessar lentamente o metal espesso e desgastado, num trabalho braçal e exaustivo.

Em seguida, o aço segue para a área de aquecimento, onde altas temperaturas fazem a ferrugem desaparecer e o metal voltar a ganhar brilho.

O material aquecido passa então por máquinas que comprimem e laminam o aço, transformando as antigas chapas em barras metálicas.

É a partir dessas barras que, mais adiante, nascerão os pregos, num ciclo que devolve utilidade a uma estrutura que parecia condenada ao descarte.

A etapa final é uma das mais rápidas e impressionantes de toda a fabricação | DR

Como nascem os pregos de ferro

As barras de aço entram em máquinas que cortam, prensam e moldam o material em sequência contínua, e em poucos segundos os primeiros pregos começam a surgir, um após o outro, primeiro o corte, depois a compressão e, por fim, o formato característico da peça, com a sua ponta e cabeça.

Mesmo sendo objectos pequenos, os pregos se acumulam rapidamente conforme a produção avança sem parar.

Depois de prontos, seguem para separação e organização, enquanto novas barras continuam a alimentar o processo.

É um contraste curioso: estruturas colossais de navios oceânicos acabam reduzidas a milhares de pequenas peças usadas no dia a dia da construção, mostrando a versatilidade do aço como material reciclável.

Aqui é fundamental dar ao leitor o quadro completo, e não apenas o espetáculo industrial | DR

Os grandes pólos mundiais de desmanche naval

Esse tipo de operação não acontece em qualquer lugar do mundo.

Cerca de mil navios são desmanchados por ano no planeta, e entre 65% e 75% deles vão parar em apenas três grandes pólos do Sul da Ásia: Gadani, no Paquistão, Alang, na Índia, e Chattogram, em Bangladesh, que concentram a maior parte dessa indústria global por causa dos baixos custos e da grande procura por aço.

O pólo de Gadani, no Paquistão, fica na costa do Baluchistão, a poucas dezenas de quilómetros de Karachi, ao longo de uma faixa de praia de cerca de 10 quilómetros.

Já foi o maior do mundo nos anos 1980 e hoje é o terceiro maior, empregando cerca de 6 mil trabalhadores e recuperando mais de 1 milhão de toneladas de aço por ano, boa parte vendida no próprio mercado interno, segundo dados do sector.

A actividade movimenta biliões de rupias e tem peso real na economia local.

O lado sombrio que as imagens não mostram

O desmanche de navios é considerado um dos trabalhos mais perigosos do mundo: estima-se que, desde os anos 1960, cerca de 2 mil pessoas tenham morrido ou se ferido gravemente apenas em Gadani, número possivelmente subestimado pela falta de registos oficiais, segundo organizações que acompanham o sector.

Os riscos são muitos. Navios antigos podem conter substâncias perigosas como amianto, óleo residual e tintas tóxicas, e respirar a poeira desses ambientes pode causar danos pulmonares graves ou até a morte.

Os salários costumam ser baixíssimos, com relatos de remuneração na faixa de poucos dólares por dia, e grande parte da mão de obra é formada por trabalhadores migrantes vindos de regiões pobres, muitos dos quais nunca tinham visto o mar antes de começar nessa função.

Um problema ambiental e geopolítico

Além do custo humano, há um custo ambiental e uma dimensão internacional no tema.

O método mais comum nesses pólos é o de encalhar os navios directamente na praia e desmontá-los ali, o que favorece a contaminação do solo e do mar por resíduos tóxicos, agravada pela queima de materiais e pelo descarte inadequado de substâncias perigosas, em locais que nem sempre têm infra-estrutura para emergências.

Há ainda a questão geopolítica: embora leis internacionais procuram controlar o envio de navios contaminados a países em desenvolvimento, brechas legais e o uso das chamadas “bandeiras de conveniência” permitem que embarcações antigas de nações ricas cheguem ao Sul da Ásia.

Para tentar mudar esse cenário, a Convenção de Hong Kong, da Organização Marítima Internacional, entrou em vigor em Junho de 2025, estabelecendo regras obrigatórias para uma reciclagem de navios mais segura e ambientalmente correcta, embora os seus efeitos práticos ainda dependam de fiscalização.

Por que isso importa, inclusive para o Brasil

O tema dialoga directamente com debates importantes no mundo todo.

A reciclagem de aço é, em si, uma prática ambientalmente valiosa, pois reduz a necessidade de extrair e processar minério de ferro novo, economizando energia e recursos naturais, e o desafio é justamente conciliar esse reaproveitamento com condições dignas de trabalho e protecção ambiental, algo que os pólos asiáticos ainda buscam alcançar.

Para o Brasil, que tem um parque siderúrgico relevante e também recicla grandes volumes de sucata metálica, o caso serve de reflexão sobre como crescer de forma sustentável e responsável.

Mostra que reaproveitar materiais é o caminho certo para a economia circular, mas que isso precisa vir acompanhado de respeito à vida dos trabalhadores e ao meio ambiente, um equilíbrio que vale para qualquer país e qualquer indústria.

A transformação de chapas de navios velhos em milhares de pregos é uma daquelas histórias que revelam a engenhosidade humana em reaproveitar quase tudo, dando nova vida ao aço que um dia cruzou os mares.

Por trás do brilho do metal recém-moldado, porém, existe uma realidade dura, feita de trabalho arriscado, salários baixos e desafios ambientais que merecem atenção.

Reconhecer as duas faces dessa indústria, a da reciclagem inteligente e a do custo humano, é essencial para que o reaproveitamento de materiais avance de forma verdadeiramente sustentável e justa em todo o mundo.

CPG