O SALTO NO ESCURO: A ENGENHARIA ENTRE O DEVER E O RISCO

O SALTO NO ESCURO: A ENGENHARIA ENTRE O DEVER E O RISCO

Ser engenheiro de minas em Angola, no auge da guerra civil, não era apenas uma profissão; era um exercício diário de sobrevivência. Naquela época, o diploma não nos dava apenas autoridade técnica, dava-nos a responsabilidade de encarar o perigo de frente. Olhando para trás, percebo que cada viagem para as Lundas era uma roleta-russa, um pacto silencioso com o destino onde a necessidade falava mais alto que o medo.

O Baptismo das Duas da Manhã

A jornada começava no silêncio absoluto da madrugada. Às duas horas, o som seco das batidas no portão quebrava a paz ilusória do lar. Era o motorista da empresa, fiel e pontual na sua sina: “Chefe, já cheguei. Temos que partir para o Aeroporto 4 de Fevereiro.”

Aquele era o momento da verdade. Entre o conforto do quarto e a incerteza do mato, havia o peso da responsabilidade. Em casa, o dilema era cruel: ficar e ver os recursos escassearem ou partir e abraçar o risco. A escolha era sempre o trabalho, mas o preço era emocional. Virava-me para trás e via o rosto da minha esposa, Catarina, banhado em lágrimas. Aquela voz trêmula, carregada de um pressentimento que nenhum de nós queria nomear, ecoava no corredor. Eu respirava fundo e dizia o que o dever me impunha: “Mulher, tenho que trabalhar. Motorista, vamos.”

O Voo do Impossível e a Estrada da Morte

No aeroporto, a segurança era uma miragem. Subíamos em aviões carregados de combustível, desafiando todas as normas de segurança do trabalho que os manuais russos ou ocidentais nos tinham ensinado. Éramos passageiros sentados sobre barris de pólvora, cruzando o céu de um país retalhado pelo conflito.

Ao aterrar em Saurimo, o alívio era curto. O verdadeiro teste de nervos começava na via para o Luo. Aquela estrada era um cemitério de sonhos. Os ataques eram constantes, emboscadas que não escolhiam alvos. Muitos dos nossos colegas, amigos, irmãos de profissão ficaram pelo caminho, transformando aquela rota num memorial silencioso da nossa classe.

A Gratidão da Sobrevivência

Hoje, quando escrevo estas linhas, sinto o peso e a honra de ser um sobrevivente. Se a Engenharia me deu o saber, a fé deu-me o amanhã. Deus foi grande ao permitir que o motorista batesse à minha porta tantas vezes e que, em todas elas, eu pudesse regressar para secar as lágrimas de quem me esperava.

Escrevo esta história não apenas por mim, mas por todos os que não puderam contar a sua. Ser engenheiro de Minas naquelas condições foi, de facto, um ato de coragem quase suicida, mas foi também o que ajudou a erguer os alicerces do que temos hoje.

@ Boofre Chicangala.