LÍTIO: PARCERIA COM A ÍNDIA PERMITIRÁ À CBL TRIPLICAR CAPACIDADE DE REFINAÇÃO

LÍTIO: PARCERIA COM A ÍNDIA PERMITIRÁ À CBL TRIPLICAR CAPACIDADE DE REFINAÇÃO

A Companhia Brasileira de Lítio (CBL) deverá triplicar a capacidade de produção da sua refinaria de lítio, que é actualmente a única refinaria fora da China que processa espodumênio até chegar ao composto químico de alta pureza para utilização na fabricação de baterias de veículos eléctricos. Para realizar a ampliação, que elevará a capacidade de produção de 2 mil t/ano para 6 mil t/ano, a CBL contará com recursos de US$ 40 milhões que foram aportados pela indiana Altmin, em troca de uma participação de 33% no controlo accionário da CBL Refinaria.

De acordo com Vinícius Alvarenga, CEO da CBL, a associação com a Altmin, que já é cliente da companhia brasileira desde 2019, é estratégica, porque vai viabilizar o crescimento orgânico da refinaria, que já é licenciada para expansão (projecto brownfield, fast track) no município de Divisa Alegre, em Minas Gerais (Brasil). Ele explica que a unidade de refinaria actual da CBL, embora pequena, “possui um valor imenso como acervo tecnológico, por ser a única fora da China a processar espodumênio até o composto químico de alta pureza. O problema é que, por ser pequena, a refinaria da CBL não tem competitividade internacional, tanto que actualmente o retorno financeiro do investimento em mineração é significativamente maior do que no refino. Por esta razão a CBL buscou um sócio estratégico”.

Além de ser um cliente antigo, a escolha da Altmin se justifica pelo facto de ser uma empresa de um país alinhado com o Ocidente, que está a desenvolver a sua própria tecnologia de aplicação em cátodo de bateria. E o carbonato de lítio grau bateria é usado exclusivamente para produção do cátodo de baterias íon-lítio, que tem como único cliente possível o produtor de cátodo.

“A Índia está a implementar, com recursos públicos, uma política de estado para uma cadeia integrada de lítio, o que deve fomentar a procura e levar a investimentos privados, apesar de o país não possuir recursos minerais de espodumênio. E a Altmin busca um parceiro tecnológico para aproveitar o conhecimento da CBL como um grande activo”, diz ele.

Alvarenga acrescenta que o acordo com a Altmin significa também a conquista da sustentabilidade económica para a CBL Refinaria (braço da CBL separado da parte de mineração), aumentando a competitividade e garantindo o mercado no segmento de baterias, além de abrir perspectivas para futuros desenvolvimentos baseados no seu conhecimento.

“O principal valor do acordo não é o Capex em si, mas sim o contrato de offtake de 15 anos para a aquisição do carbonato de lítio grau bateria em óptimas condições”.

Para ele, a CBL tem todas as condições para atender a possíveis crescimentos de procura, explicando que a empresa possui recursos minerais auditados suficientes para produzir a uma escala de 200 mil toneladas por ano, durante 15 anos e actualmente está a planear ir para 115 mil toneladas/ano.

“Os projectos de mineração e refinaria levam cerca de 24 meses, e a empresa não deve embarcar em novos projectos até que os actuais estejam consolidados”. Mesmo assim, ele vê grandes possibilidades de crescimento da CBL, dadas as suas áreas actualmente em exploração, que representam apenas 15% dos seus direitos minerários. Com o projecto de 115 mil toneladas/ano, segundo ele, a CBL já se torna uma empresa grande no segmento de lítio, que não possui grandes empresas em comparação com outros minerais.

O dirigente demonstra algum cepticismo quanto ao desenvolvimento do mercado de lítio grau bateria no Brasil, porque para tal seriam necessárias fábricas de cátodos e células, o que por sua vez exige uma procura que o País ainda não possui. Segundo ele, “o que impulsiona o adensamento da cadeia do lítio é a procura garantida e a cadeia depende de políticas públicas para se desenvolver”.

Vinícius Alvarenga, CEO da CBL | DR

Preços e concorrência chinesa

A grande dificuldade no mercado de lítio, conforme o dirigente da CBL, é o controlo exercido pela China, que influencia os preços.

“Embora acima do nível de equilíbrio, o preço do lítio no mercado está volátil”, diz ele, lembrando que historicamente o prémio do carbonato de lítio grau bateria em relação ao grau técnico é de 10%.

“A concorrência com os chineses em ‘mar aberto’ é difícil, devido aos grandes investimentos em refinação que eles fizeram nos últimos 15 anos, o que gerou uma espécie de dumping”. Mesmo assim, Vinicius Alvarenga acredita ser possível que os preços voltem aos níveis de pico, embora sujeitos a grandes quedas”.

O preço de equilíbrio do mercado para justificar novos projectos e manter a cadeia saudável está entre US$ 15.000 e US$ 20.000 por tonelada.

Indagado sobre a possibilidade de empresas chinesas investirem na mineração de lítio no Brasil, o executivo afirmou que eles já fizeram isso em África, onde obtiveram um ritmo de crescimento de oferta que o Brasil, por ser uma província mineral madura e com processos de licenciamento mais longos, não conseguiria fornecer. “Eles também não têm interesse em investir na refinação no Brasil e estão a focar os seus investimentos em refinação no Marrocos e na Indonésia, para contornar questões geopolíticas de fornecimento aos fabricantes de veículos ocidentais”, finaliza Alvarenga.

Brasil Mineral