
A compradora estatal de minério de ferro da China propõe medidas para conter o acúmulo do insumo siderúrgico nos portos, numa iniciativa que pode prejudicar o poder de precificação de mineradoras e traders estrangeiros.
A China Mineral Resources Group (CMRG) solicitou às autoridades que supervisionam os terminais de importação que aumentem os custos de armazenagem, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. A medida visa cerca de 15 empresas, na sua maioria estrangeiras, incluindo grandes mineradoras como a BHP e a Vale, disseram as pessoas, que pediram anonimato por se tratar de informação confidencial.
A ideia é dificultar que mineradoras e traders mantenham minério de ferro nos portos por longos períodos, reduzindo a sua capacidade de influenciar a oferta e os preços. A ofensiva ambiciosa também ressalta o poder excepcional que a CMRG agora exerce dentro do sistema administrativo da China.
A China é de longe a maior compradora mundial de minério de ferro, mas há muito tempo reclama que os preços são ditados principalmente pelas grandes mineradoras globais. A CMRG foi criada em 2022, mas se tornou mais agressiva no ano passado ao banir a importação de dois tipos de minério da BHP, a maior mineradora do mundo, após o fracasso nas negociações de contratos de longo prazo. A empresa agora está em processo de negociações com outras mineradoras para a oferta deste ano, disseram as fontes.
Segundo a proposta da CMRG, mineradoras e traders receberiam até 30 dias de armazenamento gratuito, disseram as fontes. Após esse período, as taxas começariam em 0,1 yuan por tonelada por dia e aumentariam progressivamente até atingir um tecto de 1 yuan após 180 dias. Actualmente, os portos geralmente permitem 60 dias de armazenamento gratuito e, a partir daí, impõem taxas mais modestas.
Algumas siderúrgicas e traders chineses ligados à compradora estatal estariam isentos das novas regras, embora também sejam incentivados a reduzir os seus estoques nos portos, afirmaram as fontes.
O plano foi comunicado até agora por alguns portos a certos traders, mas não houve nenhum anúncio oficial de Pequim, de acordo com as pessoas.
A CMRG e o Ministério dos Transportes da China não responderam imediatamente a pedidos de comentários. A BHP e a Vale não quiseram comentar.
A compradora estatal tem criticado repetidamente o que considera práticas de precificação opacas ou distorcidas no mercado de minério de ferro, e argumenta que estes mecanismos elevam os custos para as siderúrgicas chinesas e enfraquecem o poder de negociação do Brasil. Num comentário da sua unidade de pesquisa na semana finda, a empresa alertou que o actual ressurgimento de uma “falsa euforia” nos preços do minério de ferro é resultado da actividade especulativa de negociação.
A proposta está a ser elaborada pela CMRG há algum tempo e envolve discussões com as autoridades de transporte e reguladores portuários da China, disse uma das fontes. Ainda não está claro se tais mudanças também afectariam os contratos futuros de minério de ferro na Bolsa de Mercadorias de Dalian, que podem ser liquidados por meio de entrega física.
Os preços do minério de ferro têm se mantido relativamente estáveis este ano, e tem sido negociados, na sua maior parte, numa faixa estreita acima de US$ 100 por tonelada desde o final de Julho.
Bloomberg