
A menor distância entre as costas marítimas da Austrália e da China é de 6,2 mil quilômetros. Já do Porto de Tubarão, no Espírito Santo, até Ningbo-Zhoushan, no leste da China, são 17,8 mil quilômetros. Há outras rotas e portos relevantes, mas a comparação deixa claro: o minério de ferro brasileiro percorre quase o triplo da distância do australiano até seu principal destino — a China, maior consumidora mundial do produto.
Como, então, o Brasil consegue se manter competitivo, a ponto de ter direcionado mais de 60% das suas exportações de minério de ferro ao país asiático em 2024? A resposta passa pela logística — especialmente marítimo-portuária —, pela qualidade da matéria-prima e pelas estratégias empresariais. A reportagem do Radar Mineração esteve em uma das operações portuárias da mineradora Vale para mostrar como isso funciona na prática.
Geopolítica do minério de ferro
Austrália e Brasil são os maiores produtores globais de minério de ferro. Em 2024, o Brasil beneficiou e comercializou 447 milhões de toneladas, enquanto a Austrália ultrapassou 930 milhões. Juntos, responderam por 55% da produção e do beneficiamento mundial, estimados em 2,5 bilhões de toneladas.
Do outro lado, a China consumiu sozinha metade desse total, além de figurar como terceira maior produtora global, ao lado da Índia, com 270 milhões de toneladas.
Principais países produtores de ferro beneficiado em 2024:
Apesar de os chineses se destacarem como os maiores compradores, outros mercados como Japão, Malásia e Coreia do Sul também têm relevância. Para alcançá-los, o Brasil precisa vencer a barreira da distância. “Temos desenvolvido estratégias para levar mais minério a cada viagem, além de entregar um produto de qualidade superior ao dos concorrentes”, afirma Rodrigo Vasconcelos, director de Operações do Porto de Tubarão.
O diferencial: teor de ferro
O minério embarcado em Tubarão vem do Quadrilátero Ferrífero (MG), região que inclui, entre outras, Itabira e Ouro Preto, e é transportado por trem pela Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), com seus 905 quilômetros. Essa produção divide-se em dois tipos: itabirítico (teor intermediário, entre 52% e 64% de ferro) e alto teor (concentração acima de 64%) e é justamente a diferença entre os dois tipos que explica a competitividade brasileira.
“O minério australiano é, na sua maioria, de baixo ou médio teor. Por isso o nosso [de médio e alto teor] é preferido em mercados que produzem ligas de aço de alta resistência”, explica Hugo Azevedo, responsável pelos embarques no Porto de Tubarão.
Um dos principais destinos desses produtos é o porto de Sohar, em Omã, no sudeste da Ásia e que também recebe carregamentos de minério de ferro extraído de Carajás (PA) e embarcado no Terminal Ponta da Madeira (MA). Neste ponto da Península Arábica, a Vale opera um centro de blendagem (processo para combinar diferentes tipos de minério de ferro) onde o produto mineiro é misturado ao paraense, que tem 67% de teor de ferro, o melhor do planeta. Esse blend resulta em um produto com características químicas e físicas mais homogêneas, atendendo às especificações dos clientes siderúrgicos, com a garantia de 62% de teor, o que é considerado um padrão acima da média global.
Essa combinação de matéria-prima superior e logística de ponta, portanto, é o que mantém o Brasil competitivo no tabuleiro global do minério de ferro, mesmo percorrendo distâncias três vezes maiores que os seus concorrentes.
Radar Mineração