BAHIA CAVA POÇO VERTICAL DE MAIS DE 1,5 KM NO SUBSOLO PARA CRIAR “ELEVADORES GIGANTES” EM MINA DE COBRE

BAHIA CAVA POÇO VERTICAL DE MAIS DE 1,5 KM NO SUBSOLO PARA CRIAR “ELEVADORES GIGANTES” EM MINA DE COBRE

Um projecto subterrâneo no Vale do Curaçá reúne engenharia internacional, logística de mineração e treinamento de equipas locais numa obra que promete mudar a forma como trabalhadores e minério circulam em profundidade.

A Ero Copper avança, no Vale do Curaçá, no norte da Bahia, no Brasil, com a construção de um poço vertical de 1.550 metros de profundidade na Mina Pilar, dentro das Operações Caraíba.

A estrutura foi projectada para ampliar o acesso às áreas mais profundas de cobre, reduzir o tempo de deslocamento subterrâneo de trabalhadores e reorganizar a logística de transporte de minério, pessoas e materiais na operação.

O projecto tem engenharia e execução da UMS Group, empresa de origem sul-africana especializada em mineração subterrânea.

Segundo a companhia, o shaft foi desenhado para movimentar até 2,2 milhões de toneladas de rocha por ano e transportar 840 pessoas por dia, distribuídas em quatro turnos de trabalho.

Chamado de shaft na mineração, esse tipo de poço vertical terá 6,3 metros de diâmetro final, revestimento em cimento e quatro compartimentos internos.

A operação será atendida por dois guinchos duplos de tambor: um destinado ao içamento de minério e rocha estéril, e outro voltado ao transporte de trabalhadores, materiais e equipamentos entre a superfície e os níveis subterrâneos.

As actividades de engenharia, desenho e aquisição de infra-estrutura começaram no quarto trimestre de 2021.

A construção foi iniciada em Janeiro de 2023, de acordo com a UMS.

A previsão informada pela empresa é concluir o sistema do shaft até o fim de 2026, enquanto a Ero Copper projecta o início de operação do novo shaft da Mina Pilar em 2027.

A obra integra a estratégia de transformar a Mina Pilar num sistema com dois acessos principais.

A estrutura já existente continuará a atender os níveis superiores, enquanto o novo poço vertical permitirá o acesso à chamada Deepening Extension Zone, área mais profunda das Operações Caraíba.

Shaft vertical na Mina Pilar amplia acesso ao cobre profundo

As Operações Caraíba ficam no nordeste da Bahia, a cerca de 385 quilómetros ao norte-noroeste de Salvador, e formam um complexo integrado de mineração e beneficiamento de cobre.

O conjunto reúne as minas subterrâneas Pilar e Vermelhos, a mina a céu aberto Surubim e a usina Caraíba, com capacidade de processamento de aproximadamente 4,2 milhões de toneladas por ano, segundo a Ero Copper.

A companhia afirma que o novo shaft deve permitir taxas mais altas de lavra, diminuir o tempo de transporte entre a superfície e as regiões profundas da mina e ampliar a eficiência operacional da unidade.

Em 2025, as Operações Caraíba produziram 36.035 toneladas de cobre em concentrado.

Para 2026, a orientação divulgada pela empresa indica produção entre 35 mil e 40 mil toneladas.

Na operação actual, deslocamentos por rampas longas podem consumir horas até a frente de trabalho.

Com os elevadores de mina previstos no shaft, o tempo estimado de acesso será reduzido para cerca de 20 minutos, segundo informações apresentadas pelos executivos do projecto à Conexão Mineral.

A mudança altera uma parte central da rotina subterrânea: o transporte vertical passa a substituir parte dos deslocamentos extensos feitos por rampas, enquanto camiões e demais equipamentos tendem a concentrar as suas actividades em trechos mais próximos dos níveis de operação.

Esse arranjo é apresentado pela UMS e pela Ero Copper como uma forma de reduzir tempo improdutivo e reorganizar o fluxo interno da mina.

Como a escavação do shaft funciona no subsolo da Bahia

A UMS adoptou no projecto o método conhecido como Slype and Line, técnica que utiliza um furo piloto central para ampliar gradualmente o diâmetro do shaft por meio de detonações controladas.

O material desmontado cai pelo próprio poço e é retirado por baixo, a partir da infra-estrutura subterrânea existente.

Essa escolha foi viabilizada pela presença de túneis e rampas já operacionais na Mina Pilar.

A partir desses acessos, a equipa consegue apoiar a escavação do novo poço e retirar o material fragmentado sem depender apenas de operações pela superfície.

De acordo com a UMS, um furo central do tipo raise-bore atravessa o eixo do shaft e permite direccionar a rocha desmontada para retirada por equipamentos subterrâneos.

O ciclo de trabalho inclui perfuração, detonação, limpeza, contenção e revestimento, etapas que precisam ser coordenadas para manter o avanço da escavação dentro dos parâmetros técnicos do projecto.

Após a conclusão da etapa de escavação, o poço receberá a estrutura interna de aço, além dos sistemas de içamento, ventilação, energia, comunicação e transporte.

Só depois dessa instalação o shaft poderá operar como corredor vertical para circulação de pessoas, materiais e minério.

A infra-estrutura associada ao poço inclui sistemas de manuseio de minério e rocha estéril, passes de minério, silo de material britado e câmara subterrânea de britagem.

Segundo a UMS, esse conjunto foi projectado para transferir minério britado e rocha por transportadores até os arranjos de carregamento do shaft nos níveis profundos da mina.

Engenharia sul-africana e fornecedores brasileiros no projecto

A UMS Group desenvolveu o projecto combinando engenharia realizada nos seus escritórios na África do Sul com fabricação, montagem e contratação de fornecedores brasileiros em diferentes frentes.

A estrutura de superfície, incluindo o headgear, teve projecto sul-africano e execução com participação de empresas no Brasil.

Robert Hull, director de Operações da UMS Group, afirmou à Conexão Mineral que a empresa ficou responsável não apenas pelo shaft, mas também pelo desenho do envelope subterrâneo ligado ao projecto.

Esse escopo inclui galerias, câmara de britagem e estruturas de apoio de superfície.

Bruno Paladino, Country Manager da UMS no Brasil, explicou que equipamentos altamente especializados, como guinchos e guias de aço do tipo Top Hat Guides, precisaram ser adquiridos no exterior.

Esses componentes serão usados para orientar o deslocamento dos elevadores ao longo do poço vertical.

Noutras frentes, a empresa informou ter priorizado fornecedores nacionais, especialmente em estruturas metálicas, compressores e controlos electrónicos.

A necessidade de importar determinados itens foi atribuída ao grau de especialização exigido por projectos de escavação de shafts profundos, ainda pouco comuns no mercado brasileiro.

Treinamento de mão de obra para mineração subterrânea

A formação de mão de obra especializada é um dos pontos destacados pela UMS na execução do projecto.

A escavação de shafts profundos tem baixa presença no Brasil quando comparada a mercados com tradição maior em mineração subterrânea, o que reduz a disponibilidade de profissionais com experiência directa nesse tipo de obra.

Para enfrentar essa limitação, a empresa estruturou um programa de treinamento para trabalhadores brasileiros com experiência anterior em mineração ou construção.

Segundo relato apresentado pela UMS, esses profissionais passam por capacitação teórica e prática no subsolo, sempre acompanhados por equipas internacionais experientes durante a execução das actividades.

A organização dos turnos também foi apontada pela companhia como um factor relevante para o andamento da obra.

Segundo o portal Conexão Mineral, os executivos citam limitações associadas à jornada de trabalhadores em minas subterrâneas no Brasil e a regras relacionadas à actuação de profissionais seniores, mas a aplicação exacta desses pontos ao projecto não foi detalhada de forma documental na fonte consultada.

No projecto baiano, mais de 30% da força de trabalho actual é formada por profissionais da Bahia, segundo os executivos ouvidos pela Conexão Mineral.

A empresa também informou o crescimento da participação feminina em áreas como EHS, compras e administração, sem detalhar o percentual total de mulheres no quadro do projecto.

Segurança e produtividade no transporte subterrâneo

A redução do tráfego pesado em rampas subterrâneas é apresentada pela UMS como um fator ligado à segurança e à produtividade da mina.

De acordo com a empresa, a menor dependência de longas viagens de caminhões em profundidade pode reduzir desgaste de equipamentos, consumo de diesel e exposição de trabalhadores a deslocamentos extensos no subsolo.

Hull afirmou à Conexão Mineral que a segurança é uma prioridade na execução do shaft.

Segundo o executivo, técnicos brasileiros foram treinados nos padrões da UMS, enquanto profissionais expatriados acompanham actividades de escavação de poços ao lado das equipas locais.

A empresa também informou ter alcançado, em seus projectos globais, períodos sem registro de lesões com afastamento.

Como esse dado foi apresentado pela própria companhia na entrevista, ele deve ser tratado como informação atribuída à UMS, e não como registro independente de auditoria.

No planeamento operacional da Ero Copper, o novo shaft da Mina Pilar aparece associado ao acesso à Deepening Extension Zone a partir de 2027.

A companhia informou que continuará investindo no poço vertical e em infra-estrutura  vinculada às Operações Caraíba para sustentar as próximas etapas de produção.

A ampliação do acesso subterrâneo ocorre em um contexto de maior procura por projectos de cobre em diferentes países.

No caso da Bahia, a obra conecta a experiência sul-africana da UMS em shafts profundos à operação brasileira da Ero Copper no Vale do Curaçá, região que concentra parte importante da produção de cobre da companhia no país.

UMS amplia actuação na América Latina

Além do Brasil, a UMS informou ter aberto um escritório em Santiago, no Chile, para apoiar clientes locais de mineração com suporte técnico e de campo em operações subterrâneas e projectos de shafts.

A expansão regional foi apresentada por Paladino como parte da estratégia da companhia para actuar em mercados latino-americanos com demanda por soluções subterrâneas.

O executivo também destacou a experiência acumulada da empresa em projectos desse tipo.

Segundo a UMS, o grupo reúne mais de seis décadas de atuação em desenvolvimento e operação de minas subterrâneas, com presença em diferentes continentes.

Hull afirmou que a empresa vê oportunidades em novos projetos de cobre, ouro, platina e potássio, em razão do cenário de preços de commodities e da demanda por operações subterrâneas.

A UMS também informou ter conquistado contrato de construção para um projeto de potássio na África, sem que o texto original detalhe o nome do empreendimento.
No Brasil, a execução do shaft da Mina Pilar representa uma das aplicações mais relevantes desse tipo de engenharia em uma operação de cobre subterrânea.

A obra reúne escavação profunda, sistemas de elevação, infra-estrutura de britagem e treinamento de mão de obra local em um mesmo projecto industrial.

CPG