
”Quando se fala de Mankenda Ambroise, a imagem que aparece é de uma figura que palmilhou a pulso os diferentes meandros da indústria diamantífera angolana e que o conferem com largos conhecimentos sobre este estratégico sector da vida económica do país.
É este percurso que o engenheiro de formação, antigo ministro da Geologia e Minas e agora consultor no Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás apresenta na entrevista com importantes contornos históricos que concedeu à Revista Angola Minas. Na verdade, a evolução do subsector diamantífero angolano passou por diferentes fases: do tempo colonial, com a DIAMANG e agora na Angola independente, com a ENDIAMA.
REVISTA ANGOLA MINAS: Em que ano foi encerrada a DIAMANG?
MANKENDA AMBROISE: A Companhia de Diamantes de Angola (DIAMANG), fundada em 1917, foi formalmente encerrada e dissolvida a 17 de Fevereiro de 1988, embora o processo de nacionalização e transferência das suas actividades para o Estado angolano tenha iniciado de forma evolutiva, alguns anos depois da independência de Angola.
Onde era a sede da DIAMANG?
MANKENDA AMBROISE: A sede principal da DIAMANG estava em Lisboa, Portugal, por se tratar de uma companhia colonial de capitais maioritariamente estrangeiros. No entanto, possuía o seu principal centro operacional na Cidade do Dundo, na actual província da Lunda-Norte, onde funcionava a administração das operações mineiras em Angola. Possuía também uma representação em Luanda, centros logísticos em Saurimo, Malanje, Benguela e Luena.

Existiram angolanos em cargos de direcção da DIAMANG?
MANKENDA AMBROISE: Sim, a partir de 1974, sobretudo nos últimos anos da sua existência. Contudo, durante grande parte do período colonial, os principais cargos de decisão estratégica eram suportados por portugueses e representantes dos accionistas estrangeiros.
Vale sublinhar que os angolanos participavam principalmente em funções técnicas, administrativas intermédias e operacionais. Apenas numa fase mais avançada, especialmente próximo da independência é que alguns quadros angolanos começaram a assumir responsabilidades de maior relevo.
Portanto, dizer que nunca houve angolanos em cargos de direcção, seria incorrecto. Mas, também é verdade que o controlo efectivo da empresa permaneceu, essencialmente, estrangeiro durante a maior parte da sua história.
No entanto, depois da independência, a Diamang foi gerida por um Conselho de Administração. Historicamente, a integração efectiva de angolanos em cargo de direcção na Diamang, teve inicio com a nomeação inicial de apenas um administrador por parte do Estado angolano que foi de nacionalidade cabo-verdiana.
Seguidamente, no contexto da reorganização do sector mineiro nacional, após a independência, foi constituído um Conselho de Administração de oito membros, que integrava quatro administradores por parte de Estado, nomeadamente Manuel Francisco Lourenço “Ngakumona”, o Presidente do Conselho de Administração, Abílio Gomes, Administrador para área de Administração e Finanças, Mankenda Ambroise, Administrador para área Técnica e Operações Mineiras, e João Morais, Administrador para área de Negócios e Relações internacionais.
A ENDIAMA foi a primeira empresa criada no sector diamantífero angolano?
MANKENDA AMBROISE: Foi, depois da independência. No entanto, antes da criação da ENDIAMA existiram várias empresas ligadas à prospecção e exploração diamantífera, sendo a mais importante a própria DIAMANG.

Quando foi fundada a ENDIAMA?
MANKENDA AMBROISE: A ENDIAMA foi fundada em 15 de Janeiro de 1981. A sua criação representou uma decisão estratégica do Estado angolano para garantir a soberania nacional sobre os diamantes e assumir a gestão directa do subsector diamantífero, após a nacionalização total da Diamang.
Quem foi o primeiro Director da ENDIAMA?
MANKENDA AMBROISE: O primeiro Presidente do Conselho de Administração da ENDIAMA foi o Tenente Coronel Manuel Francisco Lourenço “Ngakumona” que, na altura era designado Director Geral, um cargo que acumulava com o cargo de Presidente do Conselho de Administração da Diamang, nos primeiros anos da sua constituição.
Uma empresa pode explorar diamantes em Angola sem ter a ENDIAMA como sócia?
MANKENDA AMBROISE: Não é permitida para a exploração industrial, sendo possível apenas para exploração semi-industrial de pequena escala. A ENDIAMA é a empresa nacional do subsector diamantífero angolano. Assim, empresas privadas nacionais ou estrangeiras interessadas em explorar diamantes normalmente actuam através de joint ventures, sociedades mineiras participadas pela ENDIAMA, contratos de investimento mineiro aprovados pelo Estado. Por essa razão, grandes projectos como a Sociedade Mineira de Catoca, Luele, Kaixepa e outros contam com a participação directa da ENDIAMA. No tocante aos projectos mineiros de pequena escala, a ENDIAMA decide sobre a sua participação ou não na sociedade, directa ou indirecta, considerando cada caso em particular.
A maior produção de diamantes ocorreu antes ou depois da DIAMANG?
MANKENDA AMBROISE: A resposta exige distinguir volume de produção e benefício para o Estado angolano. Em termos de produção física, a DIAMANG foi durante décadas uma das maiores produtoras mundiais de diamantes e possuía enormes áreas concessionadas de cerca de 52.000 quilómetros quadrados, como um Estado dentro do Estado. Em vários períodos da era colonial, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, os níveis de produção foram extremamente elevados, tendo produzido acima de 2 milhões de quilates, em 1972. Em termos de benefício para Angola, a grande diferença está na distribuição da riqueza.
Durante a fase da DIAMANG, grande parte dos lucros era expatriada. As decisões estratégicas eram tomadas fora de Angola. O Estado angolano tinha controlo limitado sobre o sector. Agora, durante a fase da ENDIAMA, os diamantes passaram a ser património estratégico nacional, o Estado passou a participar directamente na gestão das receitas, surgiram empresas mineiras nacionais e participadas. Foram criados mecanismos de reinvestimento em infra-estruturas, formação de quadros e desenvolvimento regional.

E o quadro mudou para melhor depois do alcance da paz?
MANKENDA AMBROISE: Após o fim da guerra civil em 2002, Angola registou alguns dos maiores níveis de produção e receitas diamantíferas da sua história.
Actualmente com projectos industriais em produção, como Catoca, Lulo, Kaixepa, Chitotolo, Luaxe, Lulo, Luele, Luminas, os níveis de produção e receitas são ainda muito mais elevados que nos anos anteriores do tempo da Diamang. Se a questão for quem produziu mais em determinados períodos históricos, foi a ENDIAMA. No entanto, apesar disso, a DIAMANG teve fases de produção extraordinária.
Mas, se a questão for quem trouxe maior controlo, participação e benefício directo para o Estado angolano, sem duvida que a criação da ENDIAMA constituiu um marco histórico decisivo na exploração racional e valorização dos recursos diamantíferos de Angola. Este marco e o potencial que o país possui, leva Angola a almejar ocupar pelo menos um dos lugares do topo dos países maiores produtores mundiais de diamantes brutos, alineados com padrões internacionais.
Actualmente, com a sua produção de mais de 15 milhões de quilates (15.195.293,00) e a arrecadação de 1.811.575.243,07 de dólares, alcançados em 2025. Angola ocupa o terceiro lugar em produção e em volume de vendas, depois da Rússia e do Botswana.
Foi, por isso, um passo fundamental?
MANKENDA AMBROISE: Posso reafirmar que a DIAMANG foi fundamental para descobrir, desenvolver e industrializar a exploração diamantífera em Angola, deixando um legado digno de relato e de extrema consideração que facilitou com devidos aprimoramentos, dar continuidade das operações mineiras com o bom posicionamento de Angola nesta industria, com dignidade.

É uma questão de protecção da soberania?
MANKENDA AMBROISE: Sem medo de errar, considero que a criação da ENDIAMA representou e continua a representar a afirmação da soberania nacional sobre esses recursos estratégicos para o desenvolvimento sócioeconomico de Angola e o bem-estar do povo.