RESERVAS BRASILEIRAS DE MINERAIS CRÍTICOS SEDIMENTAM CAMINHO PARA O FUTURO E A CHINA ESTÁ DE OLHO NELAS

RESERVAS BRASILEIRAS DE MINERAIS CRÍTICOS SEDIMENTAM CAMINHO PARA O FUTURO E A CHINA ESTÁ DE OLHO NELAS

Minério de ferro ainda atrai, mas chineses agora miram sector considerado estratégico para impulsionar a transição verde.

Além de liderar as importações de minério de ferro brasileiro, a China tem demonstrado crescente interesse pela exploração de diferentes tipos de minerais no Brasil. Desde Novembro de 2024, as mineradoras chinesas investiram US$ 4 biliões na aquisição de activos de mineração brasileiros, especialmente minerais críticos – como níquel, cobre e estanho – ou estratégicos como o ouro.

“O movimento das mineradoras chinesas é uma tendência materializando-se em realidade e deve-se à necessidade imediata de garantir insumos e atender à verticalização. Normalmente, o interesse é por projectos ‘brownfield’, já em operação”, analisa Rafael Marchi, sócio-director da A&M Infra.

Luciana Brum, gerente de relações externas da Vale, ressaltou, em evento do sector, que desde 2014 a China é o destino de 50% das exportações de minério de ferro. Além do fornecimento para o mercado imobiliário, há novas oportunidades.

“Temos discussões avançadas com clientes chineses para oferecer produtos inovadores, como novos aglomerados e briquetes, além de novos modelos de negócio, como megahubs para produção de aço de baixo carbono”, diz Brum.

“O movimento das mineradoras chinesas é uma tendência materializando-se em realidade e deve-se à necessidade imediata de garantir insumos e atender à verticalização”, analisa Rafael Marchi, sócio-diretor da A&M Infra — Foto: Divulgação

Dados da Agência Internacional de Energia (IEA) apontam que o mercado global de minerais críticos movimentou mais de US$ 300 biliões em 2022 e deve dobrar até 2030, impulsionado pelas transições energética e tecnológica. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras e minerais críticos, atrás apenas da China, mas a produção ainda é muito pequena, e desenvolvê-la é um desafio.

“O cobre é estratégico para as baterias que complementarão a energia nos períodos de intermitência das fontes renováveis. Os data centers e a inteligência artificial são outras fontes de consumo. Mas o tempo para o início da exploração desses minerais é de até 15 anos, e não vai atingir a velocidade da procura”, alerta Marchi.

Brum diz que a exploração de minerais críticos é controlada pela China porque houve uma visão de desenvolvimento de uma cadeia de valor. Para ela, há muita discussão sobre como desenvolver cadeias ocidentais paralelas.

“Isso é complexo porque se começaria com um gap de competitividade em relação a uma cadeia já estabelecida. Mas não quer dizer que não haja oportunidade para o Brasil, que tem grandes reservas e a chance de buscar cadeias de valor”, destaca Brum.

O governo brasileiro prepara a Política Nacional de Minerais Críticos para a Transição Energética. A expectativa é de que sejam criados incentivos fiscais e estímulos para o adensamento da cadeia, para que o país deixe de ser apenas exportador de commodities.

Manuel Fernandes, sócio-líder de energia e recursos naturais da KPMG, destaca que apenas 50% do território brasileiro foi mapeado.

“As reservas são atrativas para investimentos. Mas precisamos negociar e atrair investidores que queiram fabricar produtos de valor agregado aqui”, defende Fernandes.

Ele cita o movimento da BYD, que adquiriu activos de mineração de lítio, no Vale do Jequitinhonha (MG), para garantir matérias-primas para a sua produção de veículos eléctricos e baterias em Camaçari (BA), integrando verticalmente a cadeia.

“Isso interessa muito mais do que enviar o mineral in natura para plantas no exterior”, considera o consultor da KPMG.

Em Maio do ano passado, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, assinou, em Pequim, o Plano de Acção de Cooperação para o Desenvolvimento Sustentável da Mineração. O plano contempla o fortalecimento das cadeias produtivas de minerais, inovação, financiamento, investimentos e ampliação da agregação de valor nas etapas de transformação mineral.

Embora a presença chinesa ainda seja menor do que a do Canadá, dos Estados Unidos e da Austrália, a participação já é significativa. Em Janeiro deste ano, a Chalco (67%) — subsidiária da chinesa Chinalco — e a anglo-australiana Rio Tinto (33%) adquiriram, por US$ 1,57 bilião, os activos de alumínio da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) em diversos Estados brasileiros.

Em Dezembro de 2025, o CMOC Group adquiriu as quatro minas de ouro da Equinox Gold no Brasil (MA, MG e BA) por US$ 1 bilião. A empresa já tem uma operação consolidada na produção de nióbio em Catalão (GO) e de fosfato em Ouvidor (GO), activos adquiridos da Anglo American em 2016, numa transação avaliada em US$ 1,5 bilião.

“O ouro não é mineral crítico, mas é estratégico como activo de reserva de valor. Há uma corrida intensa por projectos de ouro”, destaca Pedro Henrique Jardim, sócio de mineração do escritório Machado Meyer Advogados.

Em termos de minerais críticos, a MMG investiu US$ 500 milhões na compra das minas de níquel da Anglo American em Goiás, em Fevereiro do no passado. Listada em Hong Kong e sediada na Austrália, a MMG é controlada pela estatal chinesa China Minmetals Corporation.

Em Novembro de 2014, a China Nonferrous Metal Mining Group (CNMC) adquiriu a mina de estanho da Mineração Taboca no Amazonas do grupo peruano Minsur, por
US$ 340 milhões. Já a Baiyin Nonferrous Group assumiu o controlo da Mineração Vale Verde, que tem minas de cobre em Alagoas, adquirida da Appian Capital Brazil por US$ 500 milhões. E, por fim, também em Novembro de 2024, a Huaxin Cement adquiriu, por US$ 186 milhões, a Embu S.A., um dos principais produtores de minerais para construção.

Valor Económico