
Iniciativa ocorre em meio a impasses internacionais sobre impactos ambientais negativos em cadeia e regras para explorar minerais no fundo do mar.
Estados Unidos e Japão assinaram um memorando de cooperação para compartilhar pesquisas e dados sobre mineração em águas profundas. O acordo, sem carácter vinculativo, cria um grupo de trabalho para trocar informações científicas e experiências operacionais, incluindo projectos conduzidos por Tóquio nas suas próprias águas. A iniciativa ocorre em meio a impasses internacionais sobre regras para explorar minerais no fundo do mar.
A parceria foi formalizada após encontro entre o presidente Donald Trump e a primeira-ministra Sanae Takaichi, em Washington (EUA). O documento também foi apresentado durante uma reunião recente da International Seabed Authority (ISA), onde cerca de 170 países voltaram a não chegar a um acordo sobre a regulamentação da actividade em águas internacionais.
A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) é uma organização intergovernamental da ONU criada em 1994 para organizar e controlar as actividades minerais na área internacional do leito dos oceanos e actua como guardiã desse património comum da humanidade, protegendo o ambiente marinho e regulando a mineração em alto-mar.
A mineração em alto-mar é vista pelos seus defensores como estratégica para garantir insumos críticos à transição energética e à indústria tecnológica, como cobalto, níquel e cobre. A extracção ocorre em regiões abissais, a até 6 mil metros de profundidade, com o uso de equipamentos robóticos que raspam ou aspiram o leito oceânico para recolher depósitos minerais, como nódulos polimetálicos formados ao longo de milhões de anos.
O avanço da agenda entre EUA e Japão ocorre paralelamente a críticas de governos e organizações internacionais. Em 2025, uma ordem executiva assinada por Trump acelerou permissões para companhias americanas explorarem minerais em águas internacionais, mesmo sem a adesão do país à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, tratado que fundamenta a actuação da International Seabed Authority.
Apesar do impulso político, a exploração comercial ainda não começou. Projectos seguem em fase de pesquisa, enquanto cresce a pressão por uma moratória. Moradores de territórios ligados aos EUA já apresentaram petições contra a actividade, e protestos têm ocorrido no mar, com críticas ao avanço da mineração sem regras globais definidas.
Impactos ambientais em debate
Os possíveis efeitos ambientais da mineração em águas profundas estão no centro das controvérsias. Cientistas alertam que a remoção de nódulos e sedimentos pode destruir habitats pouco conhecidos e de lenta regeneração, além de afectar espécies adaptadas a condições extremas.
Estudo recente aponta que apenas a realização de testes de mineração em águas profundas podem afectar directamente mais de um terço dos animais que vivem no fundo do mar. A pesquisa, conduzida a partir de uma operação experimental na zona Clarion-Clipperton, no Oceano Pacífico, identificou impactos significativos na fauna bentônica (formada por seres vivos que habitam o fundo de corpos d’água) logo após a recolha de nódulos polimetálicos, como alterações na biodiversidade e na abundância de espécies, além de evidências de que a actividade pode comprometer a disponibilidade de alimento e desencadear efeitos em cadeia nos ecossistemas marinhos.
A actividade pode gerar plumas de sedimentos que se espalham pela coluna d’água, interferindo em cadeias alimentares e na qualidade da água. Outro ponto de preocupação é o ruído e a vibração causados pelos equipamentos, com potencial de impactar organismos marinhos em larga escala. Como esses ecossistemas ainda são pouco estudados, há incertezas sobre a extensão e a reversibilidade dos danos.
Folha de São Paulo