
Uma união entre as duas empresas representaria o maior negócio já realizado no sector; as acções da Glencore dispararam cerca de 10% em Londres.
O grupo Rio Tinto está em negociações para comprar a Glencore e criar a maior mineradora do mundo, com valor de mercado combinado superior a US$ 200 biliões, pouco mais de um ano depois de conversas anteriores entre as duas empresas terem fracassado.
As companhias vêm discutindo uma possível combinação de parte ou da totalidade dos seus negócios, incluindo uma aquisição integral por meio de troca de acções, segundo comunicados separados divulgados esta semana. A notícia animou os investidores: as acções da Glencore dispararam cerca de 10% em Londres, enquanto os papéis da Rio Tinto recuaram 2,2%, após já terem caído 6,3% no pregão australiano.
O impacto se espalhou pelos mercados europeus. As bolsas da região operaram em leve alta nesta sexta-feira, com o índice STOXX 600 avançando cerca de 0,39%, aos 606,19 pontos, impulsionado principalmente pelo salto da Glencore. Já a queda de cerca de 2% da Rio Tinto reflecte a cautela dos investidores diante das negociações ainda preliminares. Mesmo em meio a balanços corporativos fracos e a novas tensões geopolíticas, o desempenho coloca o STOXX 600 no caminho da sua maior sequência de ganhos semanais desde Maio do ano passado. Entre os principais mercados, Londres sobe cerca de 0,36%, Paris avança 0,51% e Frankfurt regista alta moderada de 0,07%.
Maior negócio do sector de mineração
Uma união entre as duas empresas representaria o maior negócio já realizado no sector, que está a ser tomado por uma onda de fusões e aquisições à medida que os maiores produtores procuram ampliar a sua exposição ao cobre — um metal crucial para a transição energética e que está a ser negociado perto de máximas históricas. A Glencore e Rio Tinto possuem grandes activos de cobre, e a potencial transacção iria criar um novo gigante da mineração para rivalizar com o BHP Group, que há muito tempo detém o título de maior mineradora do mundo.
Analistas já questionavam sobre possíveis obstáculos ao negócio. A Glencore é uma das maiores produtoras de carvão do mundo — um segmento do qual a Rio já saiu — e as duas empresas têm culturas corporativas bastante diferentes.
No entanto, pessoas familiarizadas com o assunto disseram na sexta-feira que a Rio está aberta a manter o negócio de carvão da Glencore caso as negociações tenham sucesso. A estrutura e o escopo de qualquer acordo ainda estão a ser discutidos, mas um dos principais cenários em análise é a aquisição de toda a Glencore, incluindo o negócio de carvão, segundo essas fontes, que pediram anonimato por se tratar de informações privadas. Nenhuma decisão final foi tomada, e a Rio também poderia optar por se desfazer do carvão num momento posterior, caso o acordo avance.
A Rio Tinto tem uma capitalização de mercado de cerca de US$ 137 biliões, enquanto a Glencore é avaliada em US$ 71 biliões.
As duas empresas mantiveram discussões em 2024, mas as negociações foram abandonadas depois que não conseguiram chegar a um acordo sobre a avaliação. Desde então, a Rio trocou o seu CEO, enquanto a Glencore passou a destacar publicamente as suas perspectivas de crescimento no cobre. Em conversas privadas, o CEO da Glencore, Gary Nagle, descreveu uma união entre Rio e Glencore como o negócio mais óbvio do sector. Ainda assim, a diferença entre as avaliações das duas empresas aumentou desde as discussões anteriores.
Cobre em evidência
As negociações ocorrem num momento em que o cobre nunca esteve tão em evidência. O metal subiu para máximas recordes acima de US$ 13 mil por tonelada no início desta semana, impulsionado por uma série de paralisações em minas e por movimentos para estocar o metal nos Estados Unidos antes de possíveis tarifas de uma administração Trump. Executivos do sector de mineração vêm alertando há anos que a oferta futura do metal será limitada, já que a procura deve crescer fortemente enquanto a indústria enfrenta uma escassez de novas minas.
Isso reforçou o foco já existente entre executivos e investidores de que a oferta futura de cobre será apertada.
Uma união entre Rio e Glencore criaria a maior mineradora do mundo. As empresas têm valor de mercado combinado superior a US$ 200 biliões.
Para a Rio, um acordo com a Glencore ampliaria significativamente a sua produção de cobre e daria à empresa uma participação na mina Collahuasi, no Chile — uma das jazidas mais ricas do mundo e que a companhia cobiça há muito tempo. Embora a Rio já possua grandes activos de cobre, ela e a rival maior, a BHP, ainda obtêm uma parcela substancial dos seus lucros do minério de ferro, um mercado que enfrenta um futuro de procura incerto à medida que o boom de construção de décadas da China se aproxima do fim.
“Faz muito sentido”, disse Ben Cleary, gestor de portfólio da Tribeca Investment Partners. “É o grande negócio de mineração que existe no momento”.
O novo CEO da Rio, Simon Trott, tem se concentrado até agora em cortar custos e simplificar os negócios, e a empresa prometeu se desfazer de algumas das suas unidades menores. O chairman Dominic Barton sinalizou que a Rio deixou para trás uma série de negócios desastrosos do passado, afirmando que a companhia será mais aberta quando se tratar de aquisições.
“Este é o primeiro teste de Simon como CEO, e eu esperaria que a sua abordagem disciplinada fosse aplicada também às fusões e aquisições”, disse John Ayoub, gestor de portfólio da Wilson Asset Management, accionista da Rio.
As novas conversas ocorrem em meio a uma onda mais ampla de negociações no sector, mais recentemente com o acordo da Anglo American Plc para comprar a Teck Resources Ltd., após a Anglo ter conseguido barrar uma tentativa de aquisição pela BHP. O chairman da Rio, Dominic Barton, reiterou que a mineradora superou uma série de negócios malsucedidos do passado e será mais aberta a aquisições.
A própria Glencore foi uma das compradoras mais agressivas do sector no passado, incluindo uma proposta ousada para se combinar com a Rio em 2014, liderada pelo ex-CEO Ivan Glasenberg, que ainda detém cerca de 10% da empresa.
Mais recentemente, a Glencore tem enfrentado pressão crescente de investidores após as suas acções terem ficado para trás no ano passado, afectadas por preços fracos do carvão e por dúvidas sobre a sua estratégia. A empresa colocou as suas minas de cobre no centro do negócio, e o CEO Nagle apresentou no mês passado planos para quase dobrar a produção de cobre ao longo da próxima década.
Embora os activos de cobre da Glencore sejam provavelmente a principal atracção, a empresa também é a maior transportadora de carvão do mundo. Além disso, minera metais como níquel e zinco e possui um gigantesco negócio de trading.
De acordo com as regras britânicas de aquisições, a Rio tem até a primeira de Fevereiro para confirmar se fará uma oferta ou se vai se afastar das negocões por seis meses.
InvestNews